Carleto Bemerguy, Carlos Scliar e David Lavinski
Carleto Bemerguy Não foi possível fazer contacto ou identificar familiares ou pessoas que pudessem falar sobre Carleto Bemerguy. As pesquisas também não revelaram maiores detalhes. Entretanto, outros membros da Comunidade Judaica o identificaram como tal, informando ter ido à guerra, sendo ignorado seu paradeiro atual. Os registros da Associação Nacional de Veteranos da FEB dele dizem ter sido Soldado, tendo embarcado aos 08 fev 1945 integrando o CRP – Centro de Recompletamento de Pessoal e retornado em 22 ago 1945 no 1° Regimento de Infantaria, Regimento Sampaio. Isto significa que após algum tempo na retaguarda, recebendo instrução, foi mandado a linha de frente para suprir uma baixa, incorporando-se ao 1° RI. Carlos Scliar Carlos Scliar nasceu em Santa Maria da Boca do Monte aos 21 jun 1920. Foi um dos grandes mestres brasileiros da gravura e da pintura. Embarcou para a Itália aos 22 set 1944, integrando o 1° Grupo do 1° Regimento de Obuses Auto Rebocados, retornando em 28 jul 1945 com a Tropa do QG. Mais adiante reproduzimos trechos de uma entrevista ao VERDE-OLIVA, onde o artista fez reminiscências sobre o seu período na FEB. Em 1950, após voltar da Europa, Scliar recebeu convites para a realização de murais sobre o levante do Gueto de Varsóvia (SP), teve projetos aprovados por Oscar Niemeyer, para Brasília, e ainda para os Estados Unidos, através do Itamaraty. Em 1966, Carlos Scliar realiza o mural para o Banco Aliança, em edifício projetado por Lúcio Costa e em 1973 para a Manchete, onde surgiria o primeiro grande painel sobre Ouro Preto. Carlos Scliar realizou inúmeras mostras individuais de pintura, desenho e gravura, trabalhos criados em seus atéliês de Cabo Frio e Ouro Preto. Também integrou centenas de coletivas no Brasil e exterior. Suas obras estão em Museus e coleções nacionais e estrangeiras. Sobre Scliar, escreveu o mestre Oscar Niemeyer: “Um dia, em Paris, André Malraux me falou do seu “museu imaginário” e comentou: “Cada um de nós tem o seu museu. Coisas que leu e viu emocionado, guardando-as cuidado samente no seu subconsciente”. No meu pequeno museu, guardo com especial carinho a obra de Scliar. Obra feita de amor e beleza; de coerência e personalidade. E quando dela me lembro, nela adiciono, sem querer, sua figura generosa, entregue à sua pintura, é claro, mas sem esquecer o mundo em que vive, com suas misérias revoltantes. E, como também não me alheio de tais problemas, esse aspecto humano do nosso amigo assume para mim um peso maior. Não é apenas um grande artista, mas um homem que preza a vida e seus semelhantes, pronto a com eles dividir e participar.” (Oscar Niemeyer, texto para exposição “Scliar: Obras Recentes”, Galeria AM Niemeyer, março de 1981). Em entrevista para Verde-Oliva, Setembro/Outubro 1997 Ano XXV Nº 157 Scliar menciona que mudou sua percepção da vida após integrar a Força Expedicionária Brasileira (FEB) na 2ª Guerra: “Nasci em Santa Maria (RS) em 1920. Por acaso, meu pai passou por lá a caminho de Porto Alegre. Ele trabalhava em Buenos Aires. Em Santa Maria, encontrou uma organização especialista em roupas e lá conheceu minha mãe, uma operária. Hoje sou “Honoris Causa” na Universidade. Acho curiosa a minha cidade. Tenho muito orgulho em dizer que sou de Santa Maria da Boca do Monte, pois fui levado para Porto Alegre e só voltei em 1950. A FEB foi decisiva para a pessoa e para o artista. Como artista, era muito menor. É a miscigenação, que tem uma formação peculiaríssima. O índio, o ibérico, o negro, cada um deles trouxe a sua contribuição. Isso nada mais é do que a origem do Exército em Guararapes. Essa experiência toda que tenho acumulada me faz dizer que o problema social era muito importante e a FEB foi uma ruptura nesse sentido. Foi uma experiência densa e marcante porque eu tinha a sensação de que todo dia seria o último lá na FEB. A guerra é isso. “Sinto que foram esses desenhos, quase um mil, não sei exatamente quantos, tantos rasguei, quase tantos quantos guardei...” Fui do Grupo Levi Cardoso – I Grupo – I/1º RO/AuR, atuando na central de tiro na função de controlador horizontal. Na primeira vez em que se organizou a Unidade de Artilharia, sediada em São Cristóvão, o Cel Levi Cardoso me consultou se aceitaria fazer um curso. Aceitei, fui aprovado e promovido a cabo. Na Itália, com a experiência de artista gráfico, fui trabalhar no serviço especial para a imprensa, na confecção do “Cruzeiro do Sul”. Eu, que até então pintava só o lado social em torno de mim, achei que tinha de mostrar que a vida poderia ser bela. Nós tínhamos de lutar para que o mundo fosse melhor do que era. Tinha de mostrar que o mundo dependeria da gente. A guerra me ensinara isso. A guerra me deu a sensação de quanto a vida é uma coisa precária. A guerra a gente controla até um certo ponto. A FEB, no meu ponto de vista, significa para o Brasil realmente a consciência de que o Estado Novo, nascido da influência do fascismo, não tinha mais razão de ser e que a vontade do povo, daqueles que fazem a grandeza do País, tem de ser respeitada. Para nós, o nazismo, com seus campos de concentração, onde milhões de pessoas foram exterminadas por razões ideológicas, raciais e religiosas, foi uma monstruosidade que não cabe em lugar nenhum. Eu tive com os nossos soldados e superiores uma relação respeitosa, aténciosa, de tal maneira condizente com as expectativas. Aprendi, mas aprendi na pele porque, para mim, a guerra foi uma lição de que cada dia poderia ser o último e, por isso, era essencial vivê-lo. Hoje, vejo um mundo como algo que precisa ser reformulado e depende de nós. A experiência da FEB, para mim, foi tremendamente rica. Acho que todos os que passaram pela experiência da FEB devem ter aprendido ensinamentos decisivos para a vida pessoal. Primo de Carlos, o médico e escritor Moacyr Scliar enviou um texto que foi lido em 1º de maio de 2005 no Grande Templo Israelita, no Rio de Janeiro, durante a homenagem aos Heróis Brasileiros Judeus da Segunda Guerra Mundial, e que aqui segue: “Ser primo do Carlos Scliar era para mim motivo de orgulho. Aliás não só para mim, para toda a família. Que não era pequena. Nove filhos a minha avó Ana trouxera da Rússia e todos eles também tiveram um número razoável de filhos. Resultado: uma grande tribo de gente voltada sobretudo para a cultura: vários músicos, um fotógrafo e cineasta, vários profissionais liberais... Mas em Carlos eu via um modelo, sobretudo por causa da coerência e da dignidade com que sempre se dedicou à sua arte. Mais que isto, desde cedo revelou-se um militante que acreditava em um mundo melhor, sonho que partilhava com numerosas pessoas, entre elas Jorge Amado e Zelia Gattai. Foram os primeiros escritores que conheci, e isto graças ao Carlos, que lhes servia de anfitrião cada vez que vinham a Porto Alegre. Eu admirava o talento de Carlos. Um talento que ele, generosamente, tratou de me transmitir. Um dia, eu ainda garoto, resolveu me ensinar a desenhar. Deu-me um lápis, uma folha de papel, e pediu que eu o retratasse. Desenhei um círculo com vários pontinhos dentro. Ele olhou aquilo, meio espantado, e perguntou o que era o círculo. A tua cara, respondi. E esses pontinhos, ele indagou. A barba, foi minha resposta. Ele não disse nada, mas não voltou ao assunto. Em compensação, quando comecei a escrever minhas primeiras historinhas, era a ele que mostrava. Lia, anotava, dava sugestões. E indicava-me autores para ler; foi graças a ele que descobri Clarice Lispector. Até hoje lembro Carlos lendo em voz alta o belíssimo conto “Uma galinha”, que tinha publicado na revista Senhor. Antes disso, porém, ele foi para a guerra. De novo, aquilo me encheu de orgulho. Mas seus pais sofriam muito. Pior ainda, a mãe, Cecília, faleceu quando ele estava na Itália. Meu tio Henrique, desnorteado, não sabia como dar a notícia ao filho, numa época em que as comunicações eram precárias. Entrou em contato com Rubem Braga, que era então correspondente de guerra junto aos pracinhas e pediu que o fizesse. Numa crônica notável, Braga conta que procurou Carlos e encontrou-o felicíssimo: era sua primeira folga no fronte e ele ia aproveitar para visitar Florença. Braga adiou a revelação: “Não se pode estragar a primeira visita de um jovem artista a Florença.” No fronte e na vida Carlos Scliar foi um lutador admirável e humano. Faz falta. Faz muita falta.” Junto ao Canal de Itajuru, em Cabo Frio, Rio de Janeiro, está instalado um extenso repositório de sua obra, o Instituto Cultural Carlos Scliar, que dispõe de um acervo de 150 obras do próprio Carlos e de outros renomados artistas e que foram doados pelo pintor para a instituição, juntamente com a belíssima casa, um sobrado do final do sec. XVIII adquirido em ruínas em 1960, dos herdeiros do Marechal Candido Rondon, onde o artista residiu por 40 anos. Scliar faleceu em 28 de abril de 2001 no Rio de Janeiro, onde foi cremado, e as cinzas, aténdendo a seu pedido, lançadas no mar de Cabo Frio. David Lavinski Em 1944, David estava acantonado no Forte de Campinho, subúrbio do Rio de Janeiro, com o seu Grupo de Artilharia. Embarcou em 22 de setembro com o 2º e 3º dos 5 escalões da FEB, integrando o Grupamento General Cordeiro de Farias, Comandante da Artilharia Divisionária da FEB. Era véspera de Yom Kippur. A bordo do navio da Marinha Americana, U.S.S. General W. A. Meenor, de transporte de tropas, o gaúcho de Quatro Irmãos, David Lavinski, ouviu pelo fonoclama um Rabino Capelão Naval americano convocando os judeus que estivessem a bordo para o Kol Nidrei. Compareceram trinta militares da fé mosaica, entre brasileiros e americanos. A cerimônia teve de ser interrompida pela ameaça de ataque de submarinos nazistas e o navio começou a navegar em zigue-zague, o que provocou enjôo em muitos expedicionários, inclusive David, que se julga um homem valente, tendo sido a única ocasião em toda a sua vida que sentiu medo, muito medo. David era cabo, servindo no I Grupo do 2º Regimento de Obuses Autorebocado (I/2º ROAuR). Pertence a uma família de agricultores judeus que até hoje se dedica ao plantio de soja e trigo no Rio Grande do Sul. Nasceu na antiga Erechim, hoje município de Getulio Vargas, aos 5 de março de 1920, filho de Gregório e Sara. Como outros Veteranos judeus, David descende de imigrantes que vieram da Rússia no projeto financiado pelo Barão Maurice de Hirsch, que fundou a Jewish Colonization Agency. que comprava terras no interior do Brasil, Argentina, Estados Unidos e Canadá, e pagava as passagens dos judeus que quisessem sair da Europa sofrida e se transformarem em agricultores naquelas terras abençoadas, carentes de povoação e mão-deobra, onde prosperariam e conservariam sua ricas tradições. David Lavinsky, gaúcho de Quatro Irmãos, reside atualmente em Belo Horizonte. Havia acabado de prestar o serviço militar e dado baixa como cabo telegrafista e motorista quando o Brasil declarou guerra aos países do Eixo. Era reservista de 1ª catégoria quando, aos 14 de fevereiro de 1944 foi incorporado como voluntário ao estado efetivo do grupo, sendo promovido a Cabo Metralhador. Alistou-se como voluntário e aceitou a função de soldado “para evitar a extinção do povo judeu”, segundo suas próprias palavras. Até o dia em que, já embarcado no navio norte-americano que transportava o contingente militar brasileiro para a Itália, foi chamado pelo alto-falante para a cerimônia do Iom Kipur, não conhecia outro judeu que tivesse participado da FEB. A tripulação era toda norte-americana e como houvesse muitos judeus a bordo, havia um rabino-capelão, que oficiou parte da celebração, que teve de ser interrompida pelas manobras que o navio precisou fazer para fugir dos torpedos disparados pelos submarinos alemães. Já no front, Lavinsky participou de toda a campanha da Itália dirigindo caminhões que transportavam munição para as unidades de artilharia. Trata-se do Grupo Bandeirante, antigo I Grupo do II Regimento de Obuses 105mm de Quitaúna, hoje transformado no 21 Grupo de Artilharia de Campanha Leve de Barueri, a unidade que até hoje comemora a última missão de tiro na Itália, a 01:45 da madrugada do dia 29 de abril de 1945, coincidindo com a rendição da 148 DI alemã. David foi elogiado pelo Capitão Comandante da 2ª Batéria, Walmicki Ericsson, nos seguintes termos: “Agradeço e louvo o Cabo David Lavinski pela eficiência e cooperação na marcha e ocupação de posição na noite de 13 para 14 de novembro de 1944.” A 15 de junho de 1945, recebeu mais um elogio individual do Cmt Bia: “O Cabo David Lavinski, metralhador durante toda a Campanha da Europa, mostrou ser um subordinado disciplinado, zeloso com o matérial que lhe foi distribuído, sempre pronto para aténder as ordens e de eficiente manejo da sua metralhadora. Apesar dos rigores do inverno, sempre esteve alerta de sentinela. É um cabo cioso de suas funções dotado de espírito militar e sobretudo de boa educação. A 20 de junho foi novamente elogiado individualmente pelo Cmt Bia nos seguintes termos: “O Cabo 456 David Lavinski, metralhador, pela atuação que teve no desempenho das suas funções na ofensiva da primavera que começou com o ataque ao triângulo Montese - Montelo – Monte de Bufani, e culminou com o ataque às rotas do inimigo na Itália. Sempre que necessário estava a postos, conservando em bom funcionamento as metralhadoras que lhe foram confiadas, disciplinado, honesto, trabalhador e tem perfeita consciência do cumprimento do dever.” A 5 de julho, o Exmo. Sr Major General U. S. Army Willis D. Crittenberg conferiu-lhe o título de MEMBRO HONORÁRIO do IV U. S. Army Corps. Aos 15 de agosto, já no Brasil, foi licenciado do serviço ativo do Exército, indo residir na Estação de Erebango – RS. Por ter participado das operações de guerra na Itália, David foi condecorado pelo Presidente da República com a Medalha de Campanha pelos relevantes serviços prestados ao esforço de guerra, em diploma assinado pelo Ministro da Guerra, General Pedro Aurélio de Góis Monteiro.